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01/03/2021
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LIBERDADE
 
      De repente, soltaram-se os grilhões e ele se libertou.
      
      Mesmo sem uma despedida formal, afastou-se rapidamente. Deixou tudo que não fosse ele, inclusive o próprio corpo, pois de agora em diante nada disso ter-lhe-ia qualquer utilidade.
      
      Sabíamos todos que isto iria acontecer em breve, mas diante do fato consumado, sempre fica a sensação de espanto. Nunca estamos plenamente preparados para uma condição definitiva, o que a torna sempre inesperada e surpreendente.
      
       Conseguiu atingir os 80 anos. Não foi a idade, porém, que o limitou. Foi o tempo de doença, precocemente manifesta e inadequadamente tratada na sua fase inicial, que determinou estes três últimos anos de progressiva limitação.
 
 
      Serááááá? (como ele sempre questionava, prolongando a vogal final).
      
      Hoje não há mais dúvidas. Uma mesma enfermidade crônica causa maiores e piores conseqüências quando perdura mal tratada dos 40 aos 60, por exemplo, do que quando é bem cuidada ou se manifesta após esta idade. São bons exemplos a diabete, a hipertensão arterial, a obesidade ou a depressão.
      
      Curiosamente, porém, as doenças crônicas ou os fatores de risco que contribuem para o seu desenvolvimento ou agravamento são, em geral, muito mais valorizados dentre os idosos, visto que erroneamente se entende que os mais jovens podem conviver com estas condições sem prejuízos.
      
      Ainda nos escondemos, muitos, na ilusão de que os problemas da saúde dos outros nunca ocorrerá conosco. Assim ele viveu mais da metade de sua vida, visto que já fora avisado de que algo precisava de atenção especial desde os 36, sofreu o primeiro susto aos 46 e, daí em diante, a cada período, algum novo evento lhe avisava de que os limites estavam se restringindo.
      
       Se analisada à luz do conhecimento atual, torna-se evidente que esta evolução poderia ter sido muito diferente, contendo a voracidade da doença e preparando-se para uma liberdade menos ampla no futuro. Estes conceitos, porém, ainda não eram tão claros e/ou cercados de evidências há poucas décadas atras.
      
      Certamente isto fez com que a dieta ficasse sempre para amanhã, o uso correto dos medicamentos fosse respeitado apenas nos períodos pós-complicações e a tolerância e adaptação aos novos limites nunca fossem levados realmente a sério.
      
      Quem o conheceu, entende isso facilmente. Ele que sempre valorizou tanto o prazer de ir e vir, de estar a cada instante em um lugar diferente, de não se prender à nenhuma outra vontade que não à sua, não admitia ter que se submeter àquilo que, na época de poucos sintomas, lhe parecia inútil e injustificado.
      
      Nos anos recentes, porém, quando cada ação precisava necessariamente de uma ajuda, a vida lhe deixou de ser prazerosa. Assemelhava-se a uma ave acostumada a longos vôos aprisionada em uma minúscula gaiola. Obviamente, desta condição só poderia advir um profundo sentimento de insatisfação, manifesto com a rejeição por tudo e todos que representavam as malhas de sua cerca funcional.
      
      Mesmo descontente, permitiu-nos comemorar festivamente o seu octogésimo aniversário. Sabíamos que não era daquela forma que ele gostaria de estar, mas o evento foi uma oportunidade incomparável para que todos pudessem rememorar tudo aquilo que ele sempre foi.
      
      Seu espírito, porém, ansiava por ser liberto do corpo doente que o aprisionava. Assim aconteceu poucas semanas depois em sua própria casa, serenamente, cercado pelos seus e ainda com planos de voltar a dirigir seu carro.
      
      Se não conseguimos faze-lo entender a tempo a importância de planejar o seu futuro, creio que fomos capazes de lhe permitir ser fiel ao seu passado.
 
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Data da publicação: 04/10/2007
 
Conheça o autor deste texto:
Prof. Dr. Wilson Jacob Filho
Professor titular de geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo;
Diretor do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas da FMUSP;
Coordenador do Núcleo de Geriatria do Hospital Sírio-Libanês;
Coordenador do Serviço de Gerontologia do Hospital Sírio-Libanês.


Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7686073237631159


Médico formado pela FMUSP em 1976; Residência em Clínica Médica no Hospital das Clínicas em 1977-78; Médico Assistente da Divisão de Clínica Médica do HC-FMUSP em 1979; Especialista em Geriatria pela AMB-SBGG em 1982; Doutorado em Medicina pela FMUSP em 1988; Professor Doutor do Departamento de Clínica Médica da FMUSP em 1989; Coordenador Geral do Núcleo de Atendimento Domiciliar do HC-FMUSP em 1996; Coordenador do Hospital Dia do ICHC-FMUSP em 1998; Diretor do Serviço de Geriatria do HC-FMUSP em 1999; Professor Livre Docente da Disciplina de Geriatria da FMUSP em 2004; Especialista em Gerontologia pela SBGG em 2005; Professor Titular da Disciplina de Geriatria da FMUSP em 2006. Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Geriatria, atuando principalmente nos seguintes temas: idoso, envelhecimento e atividade física.


Consultório
Clínica Pro Vitae - Divisão Pro-Senecta
R. Oscar Freire, 1946 - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3064.6483
E-mail: jacob@saudetotal.com.br
 
 
 
 
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