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17/09/2021
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PRECONCEITO
 
      Pela primeira vez, em muitos anos, Da. Jane adentrou à sala sem o seu farto riso a enfeitar as frases perspicazes de quem sabe o que os outros estão pensando. Sua vivacidade surpreende a todos, mesmo antes de saber que ela está cada vez mais próxima de completar seu centenário.
      
       Chama ainda mais a atenção quando fala das "suas crianças". É responsável por várias creches, que visita semanalmente em meio a beijos e abraços daqueles que a distinguem como "sua madrinha".
      
       Aprendeu a lidar, como poucos, com as suas limitações. Por vezes, respeita-as, procurando outras soluções. Noutras, as enfrenta na tentativa de restabelecer novos limites.
      
      Nunca me lembro de tê-la visto desanimada ou sem uma perspectiva de solução, daí a minha surpresa por aquela entrada inusitada.
      
       Há muito vínhamos discutindo a sua acuidade visual. Nada muito restritivo, exceto para a sua própria sensação de segurança em ambientes desconhecidos ou pouco iluminados.
 
 
      Os oftalmologistas consultados foram unânimes no diagnóstico: catarata em evolução, cujo único tratamento seria cirúrgico.
      
       Esta é uma condição em que a opinião do cliente é fundamental. Ninguém melhor que ele para, conhecendo a realidade dos riscos e benefícios, decidir qual caminho seguir. Para tal tínhamos tempo, pois a condição visual não era crítica e a sua saúde, felizmente, mantinha-se em um patamar bastante estável.
      
       Na consulta anterior, porém, comunicou-me que havia se decidido.
      
      Escolheu o oftalmologista, o hospital e a data da operação, vindo apenas me solicitar os exames pré-operatórios e um relatório sobre as suas afecções pregressas. Este, por ser muito breve, foi feito imediatamente. Saiu convicta, com a lista de testes, cujos resultados ela me traria para emitir o parecer final.
      
      Tudo como deve ser feito: uma pessoa hígida, conscientemente preparada para uma intervenção, participando ativamente do que lhe possibilitará manter sua autonomia e independência.
      
      Um detalhe, porém, mudou o rumo da história. Por imposição do seu plano de saúde, foi agendada uma "avaliação cardiológica" como condição para autorizar o procedimento. Apresentou-se à consulta no local e data marcados, munida do meu relatório inicial e dos resultados laboratoriais.
      
      Após algumas perguntas e um rápido exame físico, foi lhe dado o veredicto, redigido no receituário: paciente com 94 anos, diabética e hipertensa, não está em condições cirúrgicas.
      
      Atônita, recebendo o papel sem outras explicações, decidiu vir buscá-las junto a quem a conhece há mais de duas décadas. Após acalmar-se, tendo notícia de que os valores da pressão arterial e os resultados dos exames estavam normais, ficou aguardando que eu fosse tentar desvendar esta divergência de opiniões.
      
      Liguei a quem acabara de emitir o nefasto laudo, argumentando de que esta cliente nunca tivera aumento dos níveis pressóricos ou de glicemia e que seu estado de saúde mantinha-se estável há pelo menos duas décadas. Lacônicamente, respondeu com uma única frase: eu nunca autorizo cirurgia para quem tem mais de 90 anos! E desligou.
      
       Voltando à sala onde me esperava Da. Jane, expliquei que nem todos já se encontram preparados para conviver com esta nova realidade: idosos saudáveis. Uma boa parte da sociedade ainda confunde a idade com as doenças e, por isso, julga erroneamente as situações individuais. Muitos chamam isso de preconceito. Prefiro acreditar que seja apenas falta de informação adequada para a formação de um conceito.
      
       Fiz um relatório extenso, avaliando cada componente do seu organismo e enfatizando as suas adequadas condições de saúde no âmbito mais amplo possível.
      
      Cerca de duas semanas após, recebi um telefonema com o habitual riso que faltara na última visita. Entre as inúmeras considerações sobre o quanto tinha sido bem tratada durante a operação e de como todos se admiraram com a sua vivacidade, salientou: estou feliz por ter conseguido fazer aquilo que eu queria fazer.
 
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Data da publicação: 29/11/2007
 
Conheça o autor deste texto:
Prof. Dr. Wilson Jacob Filho
Professor titular de geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo;
Diretor do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas da FMUSP;
Coordenador do Núcleo de Geriatria do Hospital Sírio-Libanês;
Coordenador do Serviço de Gerontologia do Hospital Sírio-Libanês.


Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7686073237631159


Médico formado pela FMUSP em 1976; Residência em Clínica Médica no Hospital das Clínicas em 1977-78; Médico Assistente da Divisão de Clínica Médica do HC-FMUSP em 1979; Especialista em Geriatria pela AMB-SBGG em 1982; Doutorado em Medicina pela FMUSP em 1988; Professor Doutor do Departamento de Clínica Médica da FMUSP em 1989; Coordenador Geral do Núcleo de Atendimento Domiciliar do HC-FMUSP em 1996; Coordenador do Hospital Dia do ICHC-FMUSP em 1998; Diretor do Serviço de Geriatria do HC-FMUSP em 1999; Professor Livre Docente da Disciplina de Geriatria da FMUSP em 2004; Especialista em Gerontologia pela SBGG em 2005; Professor Titular da Disciplina de Geriatria da FMUSP em 2006. Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Geriatria, atuando principalmente nos seguintes temas: idoso, envelhecimento e atividade física.


Consultório
Clínica Pro Vitae - Divisão Pro-Senecta
R. Oscar Freire, 1946 - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3064.6483
E-mail: jacob@saudetotal.com.br
 
 
 
 
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